quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Bare.

Quer saber de uma coisa? Foda-se o meu passado e todas as circunstâncias que me obrigaram a fugir da esquisita que eu sempre fui. Assumo-me aquela estranha taciturna, cujo maior busca era por ser a prosopopéia desse monstro que vêem como o politicamente correto. Nunca gostei dessa bagunça, nem dessa pesquisa tão infundada e cruel pela beleza, ou pela vaidade em exibir simbolismos vazios.
Depois que conheci a tristeza profunda e que entendi que a solidão seria a minha única opção, forcei demais a barra pra parecer algo ou simplesmente pra mostrar-me o oposto. A verdade é que eu não me importo mais com os olhos que enxergam a menina que fui sentada no canto ou hospedada na biblioteca mais próxima. Também quero que morram todas essas intenções pervertidas de gente podre que me julga pelo que deixo de vestir. Por mim eu usaria uma camisetinha da Mulher Maravilha e um par de botas azuis e mais nada! Quem passasse rindo ou babando ou condenando seria mero fruto das partes obscuras da minha própria imaginação, cuja tendência, aliás, seria um gradativo sumiço pacífico.
Passei uma pré-adolescência angustiada tentando enfeitar-me, assim como um final de infância perturbado com tanta sede de conhecimento. Já ta passando da hora de eu ser exata e simplesmente o que eu DESEJO ser.
Não gosto de autores nacionais, to cansada de me machucar com sutiãs duros, odeio salto alto, não suporto filme escroto falando de líder de torcida. Queria nunca ter conhecido essa merda de música sem letra ou sem melodia, que um dia eu já julguei razoável, por falta de personalidade. Eu to cansada de omitir tudo que eu odeio e de só falar de amor por causa de toda essa culpa irracional que eu carrego em ser humana.
Deus, um dia até peço que me tornes anjo e que eu consiga, de fato, amar todo tipo de arte e quaisquer meios de vida. Eu só não agüento mais medir cada passo em experiências que, sem querer, eu me permiti conhecer. Neste momento, tudo que eu mais queria era voltar no tempo em que me fiz moça e ligar um foda-se GIGANTE pra toda patricinha que zombava de mim e pra todo amor platônico que jamais me olharia se eu não tivesse abandonado aqueles óculos e todo aquele gel.
Mas sabe, eu enxergava bem melhor de óculos e o gel aquietava meu cabelo, que sempre me atrapalhava a estudar. Eu usava vestidos até os joelhos, e não me importava dessas canelas finas e dos meus pés machucados. Tudo que eu queria era ler o mundo! E eu lia. O amor da minha vida nunca me olhava com paixão ou com vontade de desvirginar minha boca, mas meus colegas e quem apenas sabia da minha existência me viam ou com respeito ou com deboche. Não havia meio termo. E a vida era mais honesta assim, mais clara.
Sinto muita vergonha de mim, de Deus, dos meus pais, por eu ter me deixado levar pela revolta com toda aquela minha invisibilidade. A minha moeda nunca foi a do bem/mal, e sim a da tranquilidade/caos. Ambos os meus lados nunca tiveram más intenções ou abrigos duvidosos, o problema era que meu caos me deixava sozinha num bosque parado e eu precisava me mexer por entre as árvores.
Tirei a roupa, comprei blush e uma máquina fotográfica e até mudei a cor dos meus olhos. Mas tudo que consegui foi lançar a minha moeda e uma sucessão de quedas para o lado da tranquilidade. Bonita, fora do caos, eu ficava sempre lúcida e envergonhada das medidas que eu tomei enquanto estava perdida na floresta. Ou seja, na busca por olhares amáveis, deparei-me toda manhã, com meu próprio olhar míope e castanho, perguntando a mim mesma qual era o problema em ser aquela nerdzinha humilde de coraçãozinho tão sensato e bom.
Nunca acreditei nessa história de “O Bom Selvagem’, em que nós todos nascemos exemplares e nos corrompemos com o mundo. Tudo balela, já que as próprias crianças têm índoles tão distintas. No entanto, pode até ser que nascemos uns bons, outros maus, o problema é que a bendita da sociedade, de fato, faz de tudo pra mudar a gente. Se somos maus, precisamos ser piores! E se somos honestos, não há saída se não enquadrar-se para sobreviver.
A ÚNICA coisa que me conforta é não duvidar de pequenos grandes princípios que regem a minha vida desde antes de aprender toda essa retórica babaca para a qual eu vivo me escravizando. Valores, esses, sem os quais eu estaria tão perdida que nem confusão haveria mais, apenas essa diversão fútil à qual todos nós jovens, de todas as idades, somos tentados a nos entregar.
Só sei que dedos alheios apontados para a minha capa poderão jogar-me desde pedras até rosas. O importante é lembrar que há prata disfarçada de rocha e pequenos espinhos nas flores.
Se me fosse ordenado que eu me tornasse algum animal, eu seria um burro. Que caminha incansavelmente com aquele tapão de olhos na cara. Nada eu veria a não ser a reta frontal de cada missão. Teria a paz impregnada de um monge em minha natureza, portanto nem quem montasse em meu lombo seria fruto de meu rancor. Tudo que valeria à minha existência seria um pouco de água, determinação e a ignorância no exterior de todas as aparências. Toda a essência que eu guardasse em minha carga faria de mim um mercador de tesouros. A diferença seria que eu apenas doaria meu cansaço em prol de alguma dádiva pré-destinada por alguém mais Alto, independente das esporas que me ferissem.
Até que um dia tornar-me-ia cavaleiro num campo repleto de cavaleiros. Trocaríamos ouros por outros burros, para que tivessem vida menos árdua que um dia eu tive sendo o mesmo.
As minhas mazelas eu vomito para fertilizar minhas certezas.
E fim.

2 comentários:

Guilherme disse...

O que melhor do que ser estranho?
Ser estranho e saber disso.

Normal people are boring. People like you and me are full of smiling faces.

hello, disse...

To contigo. ;]