[Na página seguinte desenhei uma moça, supostamente eu, idealizada em formas e cores. Vesti-me em traje azul claro e permiti-me a companhia de um pássaro verde-marinho, uma borboleta coral e tulipas roxas. Nas minhas mãos estavam dois livros, um em cada. E meu semblante, assim como o avental cobria meu ventre, era simples e fascinante. Na figura, é como se eu fosse uma daquelas professorinhas do início do século XX na zona rural de algum país tranqüilo. O céu me abençoava com nuvens leves e a natureza sentia a minha presença.]
Penso em bibliotecas comunitárias, crianças regeneradas, literatura gostosa na ponta da língua e zonas de desespero transformadas em clínicas de paz. Penso em paredes pintadas sob tons celestes e em cada projeto escrito de tornar-se poesia vívida. Mas... O que poderia eu, uma quase mulher parte tão perdida, parte tão encontrada, fazer para sanar dores alheias possivelmente maiores que as minhas?
Eis o momento em que priorizo todo o suor do meu estudo, bem como o prazer em sua forma mais pura. Sabe, por vezes acho que é mais difícil do que parece, abrir mão de certos gozos juvenis, tais como o alívio de umas duas doses cítricas ou o carinho de um sexo apaixonado. O pesar, no entanto, que sempre me vem à tona quando vejo-me tentada, è a necessidade de uma suposta alma gêmea para realizar toda essa juventude.
Se me permite a observação, folha bonita, eu diria que preciso mesmo é de alguma doçura que recomponha a minha essência. Porque tem sido cada vez mais difícil negar-me regozijos e ainda perceber minhas mãos atadas para tratar de missões maiores.
Se eu pudesse trocar afagos com um namorado de fibra moral em evidência... Talvez seu espírito musical alegrasse mais a minha estrada e eu sentiria desejo, de fato, por essa vida simples que admiro.
[Na página final, ilustrada por um gatinho bege brincando com balões em formato de coração, dei-me conta da fragilidade de nossos peitos e dos descontroles acidentais aos quais damos brecha quando sentimos algum tipo de paixão. Enxerguei, portanto a facilidade em estourar essas bexigas. Em repente constante, tudo que almas sonham obtém gênese na família ou na força evoluída que o seu conceito exerce sobre nós. Desenhei uma mãe, um filho e um pai: todos sorrindo.]
Quem sabe um dia tenhamos a sorte de um amor tranqüilo. Sim, pilares compartilhados para todo nosso potencial em qualquer um desses mundos.

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