Se eu ao menos tivesse fones de ouvido e algumas músicas boas, ou janelas que me trouxessem praias desertas como presente, ou ainda um cobertor quentinho, uma televisão e uma panela de brigadeiro... Mas cá estou... Sem saber o que pensar em meio a tantos pensamentos.
Não posso me queixar, pois meu coração está calmo. Não me aflijo mais por falta de reciprocidade ou por quebras de ilusão. Ver minha mãe com os olhos brilhando, sentir ternura na alegria presente do meu pai... É, isso me traz paz. Agradeço.
Talvez eu esteja, nesses últimos tempos, caindo na real de que meus sonhos são bem mais quentes do que eu, de fato. Não que eu não seja, porque, se o dissesse, estaria sendo hipócrita e eis uma definição que não só não me pertence, como me irrita. Acontece que eu tenho muito mais da criança que fui do que eu imaginava. Seja em referência à "criança primeira", à descoberta da vida, à alegria pura, à tranquilidade que me moldou. Assim ainda sou!
Seja, também, em referência à menina que fugia nos livros, cujo prazer era real em estudar o mundo, para que não fosse preciso tocar na podridão das pessoas... Assim ainda sou.
Só não posso negar que, hoje, meu corpo e meu rosto se transformaram de tal forma, que, às vezes, me vejo irreconhecível. Acho que tanta mudança hormonal mexeu comigo de uns anos pra cá.
A verdade, mesmo, é que meus valores continuam intactos. Eu ainda viajo sozinha quando vejo o céu e ainda me orgulho das gracinhas bobas do meu pai. Ainda aperto as bochechas da minha mãe (que continua linda e perdida nas suas próprias necessidades adoecidas.) Eu me emociono muito e profundamente num clássico da Disney, ainda ando descalça e como com as mãos! Ainda estudo a história do homem e ainda escrevo.
A diferença é que, hoje, eu também escrevo de amor e minhas poesias não têm mais rimas pobres. Ainda me divirto com inocências. Talvez porque eu tenha crescido e descoberto as censuras, mas ainda não consigo ter malícia.
Errei. Confundi minhas emoções reais com atos vazios e talvez foi aí que eu quase me perdi. Embaralhar sentimentos, despejá-los no meio do nada, não floresceria mesmo...
Me defendo com minha inocência. Me responsabilizo por ter guardado tão bem uma fé na criança que abrigo, que deveria ser solta, valorizada.
Mas, hoje, o passarinho da gaiola de ouro, que eu tanto admirava nos livros de Rubem Alves, está livre de novo. E é tão lindo, que sempre vem me visitar e buscar água, deixando suas penas coloridas como um sinal apaixonado de sua natureza fascinante.
Ele sempre vem, está sempre por perto, feliz, em sonho e em vida.