quarta-feira, 20 de abril de 2011

lost, but alive..



Eu preferiria ser escultora, musicista ou até designer de moda. Quem escreve, logo percebe, que a palavra condiciona o pensamento, e não o contrário. Enquanto a arte visual ou puramente instrumental te apresenta leques lindos de interpretação, as sentenças escritas significam por concreto o que, na verdade, é mais abstrato do que o poeta mais sábio saberia definir. Sinto-me arrogante quando digito supostas prolixidades, sinto culpa meio adoentada ao forçar expressão minha a criar asas. Não vejo outra saída, porém, já que as letras transferem-se aos meus dedos antes que eu me dê conta do fenômeno. Se, por um lado, elaboro mensagens de paz e sinto desejo insano em proliferá-las, por outro, vejo que nada sou, nem jamais serei, caso tal pseudo-arte nunca me faça feliz. Trabalhar num escritório claro, viver de desenhos e datilografias humildes e morrer antes que tudo fosse publicado, talvez fosse bom, visto que a vaidade nunca inflaria meu ego tímido e apenas os receptores gozassem os louros de todo o processo de transmissão.
Não que o sucesso não faça parte dos meus sonhos bonitos, apenas evito me deixar tomar pela tentação desnecessária consequente de certas sensações. Talvez eu precise de personagens carregando a minha culpa, alimentando, de luz, os meus cenários e transformando todo o dramalhão convicto do real em peça digna de alguns aplausos apaixonados.

Domando leões e unicórnios, ao final do dia temos sujas de terra nossas mãos. O fim de união e disciplina justificam o pó, mas, ainda assim, sujos estamos. O camponês, à beira do rio, limpo e perfumado, "apenas" planta e colhe jasmins. Perguntamo-nos, então, por quê não sucumbir a um trabalho mais leve. Eis que ecoa a voz da plenitude: "Nossas missões são proporcionais às nossas vocações. Não queixe-se das mãos fortes com as quais nascestes: mãos leves convivem com plumas, mas as suas, movem montanhas."
O universo se completa.

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