Hoje eu vi um homem cego. Rodeado por cabeças pensantes e corações vazios, o jovem senhor, muito magro, com os olhos apagados, via-se na ponta de sua bengala. Vi gente chutando a ponta de sua bengala, ignorando, portanto, toda a visão tática com a qual o infeliz contava.
Protegida pelo bem-estar do meu ar-refrigerado, assistia, eu, calada e afogada em angústia tão alheia aos meus sentidos e à minha vontade. O homem não poderia sequer fascinar-se com o cinza de sua própria íris, tampouco com o neném que o encarava concentrado. Por um instante divino percebi que ambos sentiam a minha presença.
O momento passou.
Hoje eu atravessei a rua com um paraplégico. Provavelmente o rapaz não obtinha o suporte de uma família abonada que o fornecesse cadeiras motorizadas e café da manhã na cama, porque ele se arrastava. É, tal como se estivesse brincando com a faixa de pedestres, meu amigo anônimo perseguia seus próprios joelhos no chão sujo em busca daquela calçada distante... Apesar de ter pés, por desventura de um destino ingrato, jamais poderia senti-los. Por uma fração de segundo, notei que ele sonhava com meus passos e eu embarquei na viagem, sonhando o mesmo como consolação.
O momento passou.
Hoje voei com um pássaro lilás. Obviamente morri no pós queda. Todavia, em preciosos milésimos do meu tempo contado, avistei insetos magníficos, bolhas de sabão misteriosas e todos os couros cabeludos pequenos que me apareciam lá do alto. Senti a imensidão através do vento por entre meus dedos e fiz-me livre sob tanto fio bagunçado, alegre.
Não digo que tenha valido a pena pairar em direção à morte, pois nem um herói torna um suicídio digno de sua definição fraca. O certo é que em toda aquela extensão ilimitada de espaço e tempo, vulgo céu, vi o homem cego, o aleijado, assim como todos os caminhantes que passavam por eles. Da mesma forma que eu fazia quando viva, os andarilhos apressados passavam e sentiam pena, coçavam a testa impotentes, pegavam algumas moedas no bolso ou, simplesmente, passavam.
Meus amigos desconhecidos em seus sub-mundos, deficientes em corpos maltratados, permaneciam com as cabeças mais altivas e crédulas que qualquer um dos engravatados que os deixavam esmolas. Como eu sei?
De tão longe, leitor, testemunhando o mundo de tão acima, tudo que eu percebia eram cabeças. Cabeças libertárias e corações plenos.
Do alto, entendemos a diferença entre o sujeito que inclina-se para parecer maior e aquele que inclina-se apenas para ver o céu.
Nós, em vida turbulenta ou ociosa, enxergamos o céu como um refúgio de alguma ilusão amorosa, nunca ideal, sempre copiada de todos esses filmes manjados. Fingimos admiração quando negamos um toque à cegueira. Forjamos misericórdia quando negamos um sorriso ao esforço na caminhada de um paraplégico.
E como num passe de mágica, nós nos damos conta de que passamos por todas as bênçãos disfarçadas de mendigos e decidimos compartilhar asas com um passarinho bonito. Visto que todas as nossas estações multiplicadas já completaram seus ciclos, morremos apesar da epifania e nem tanto amor descoberto livrar-nos-ia do inferno suicida.
Não permita que o momento passe por ti e acene, entristecido.
Na calmaria do despertar de todo este engodo profundo, realize-se, molhe a face e perceba que ainda há tempo. Atravessar ruas espalhando corações lilases, voar com pássaros roxos: a sensação é a mesma. A diferença é que o primeiro ato te salva, enquanto o último mata os milésimos do tempo que conseguistes gozar.
Seja vital para a existência alheia.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário