
Como se doesse menos saber o que fizeram comigo. Como destruíram resquícios de uma infância que lutava pra existir, criança interrompida, gritos no bosquinho que me jogava areia nos olhos.
Não é fácil admitir, mas eles ditaram o que sou hoje e a culpa ainda é minha.
Me mandavam ler, me forneciam cadernos e eu que me assentasse em algum canteiro florido se eu quisesse de fato algum sinal de Deus.
O Pequeno Príncipe no quiosque se esforçava para me entreter enquanto a alguns andares dali brigavam em meu nome. Jamais entendi e não tenho esperança alguma de o conseguir. Eu só choro e aperto as minhas próprias mãos.
Não é triste que eu o faça hoje, era cruel quando eu ainda nem sabia quem era e em que eu precisava me agarrar.
Me prendi em rimas minhas, tão minhas que as perdi. Ironia nunca foi meu forte.
E quando meu mundo desabou, quando me foi dito que nem mundo eu teria, nada me era de direito, mesmo assim me afixei em paisagens e canetinhas, em tecidos e estrelas que, na verdade, eu nem via.
Até que meus óculos sempre embaçados e meus fios sempre muito presos, cresceram e acompanharam a ilusão da vida além das letras, além da cor e do desenho.
Descobri coisas que eu talvez nem fizesse questão.. a doçura que carrego sempre me foi negada, antes, pelo peso da minha garra; hoje, pela força da minha fé.
Se cada olhar que me recrimina penetrasse por meus poros e conseguisse enxergar meu coração, provavelmente não sairíam daqui iguais. Voltariam emocionados e sem julgamentos.
Enquanto bocas mediúnicas diziam que apesar da lágrima de criança, que impregnava o quarto e reunia anjos, ainda assim meu futuro seria de glória. "Serás muito feliz, menina.." É o que ela ouvia, sim, ela. Quem dera eu ainda ter todo aquele crédito.
Antes duvidavam do meu riso, agora questionam a minha fantasia.
Destruíram toda a lembrança de uma trilha que deveria ser! E não foi.
Sabe-se lá o que mereço de bom e de não tão bom nessa vida,
eu assumo tudo,
reconheço o que acredito valer a pena
e felicito o que ainda posso.

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