segunda-feira, 1 de março de 2010

stereo love...

Ninguém conhece a minha história. Muito menos imaginam o que eu não só sonho, como também planejo fazer.. desde sempre.

Nenhum de vocês presenciou minha alfabetização e a forma como eu encarei as letras pra minha vida inteira. Cartas de amor, poesias, aventuras heróicas, mundos encantados: eu devorava tudo. Por prazer sim. Aliás, mais que um prazer, as letras foram e são o meu maior refúgio, o meu alívio mais puro e sincero.

Ninguém me viu perder meu herói, meu mestre de vida. Ninguém assistiu a criança assustada o enxergando como monstro. Até que meu prazer, meu refúgio, se tornou destino certo, único, eu não tive muita escolha.

Há quem se abrigue em endereços mais vazios, mas os meus livros me garantiam paz, paixão, notas boas e acima de tudo, muita, muita esperança.
Adquiri fé quando percebi que o meu caos familiar não era nada perto do poder que as grandes histórias do mundo tinham. Autores fascinantes que me inseriam em tudo que saia de suas mentes 'lunáticas'.

Ninguém entendia a sensação que eu tinha ao sentar no pátio do colégio e passar meu recreio lendo. Acontece que eu não tava lendo, eu já nem estava mais ali.
Eu tava voando nas costas de um dragão branco, ou me derretendo de amores com uma declaração de algum príncipe.
Eu poderia estar estudando também, pra contar tudo que eu aprendi pra minha mãe, e dar um pouco mais de orgulho a uma cabeça tão perdida quanto a dela naquela fase escura.

Eu e a minha inseparável amiga 'inocência' acreditávamos que eu não só poderia mas eu deveria 'salvar' a minha mãe; ter de volta a presença do meu pai e não deixar que a minha irmã tumultuasse tanto assim as coisas. Agir, efetivamente eu não poderia. Eu tinha 10 anos! Mas eu me tornei a melhor no que eu fazia. E acredite, era um grande consolo pra todo mundo e uma injeção poderosíssima de auto-estima praquela menina gordinha e míope que eu era.

Ninguém compreendia, na essência, tudo isso.
E, mesmo assim,
os rótulos se reproduziam como coelhos.
'Ela não sabe se divertir.; essa menina é bitolada; ela não sabe se cuidar; a heloisa precisa de psicóloga; ela tem muitos traumas...' etc. etc. e tal.

Eu chorava bastante. Não pense que de tristeza, mas a vida sempre me emocionou muito. Eu chorava, mas tive a grande sorte em conhecer uma amiga que tá comigo até hoje. Com ela eu poderia me soltar, a gente dançava sem qualquer vergonha, com ela eu era.. criança. =] Eu tinha a chance de expressar meu lado naturalmente lerdo, minhas filosofias essencialmente apaixonadas e revolucionárias! A gente escrevia, conversava demais, e ria, a gente ria e ri muito!

Com o tempo, eu fui percebendo que a perdição da minha família não necessariamente era funçao minha solucionar. Eu era apenas uma jovem cheia de sonhos e de pequenas conquistas diárias que me alegravam profundamente. Eu fui sentindo o peso do meu direito de ser feliz. Porque o meu 'ego', na verdade, nunca foi melancólico ou dramático. Eu sempre fui uma menina muito feliz! Sim, apesar de tudo e apesar da forma como hipócritas me vêem. Alegria ta em mim. E quem me conhece direito sabe disso.

As luzes das boatezinhas, a caixa de som pulando nos nossos ouvidos desacostumados, tudo isso me fascinou. Eu me senita, de certa forma, vivendo algum momento mágico que eu por ventura li nos meus livros ou absorvi das minhas músicas. E, aos poucos, fui encontrando vários refúgios,
no mundo.

Eu quis tocar, dançar, viajar de mochilão sozinha pra qualquer lugar diferente. Eu quis e fiz.

Ninguém entendia a minha necessidade de libertação. E mesmo assim os rótulos brotavam:
'Essa menina se desvirtuou, ela é uma lunática!; Ela é sonhadora demais. A heloisa mudou muito.'

Sério, eu mudei tão pouco...

O que me surgiu foi coragem.
Coragem de acreditar em tudo que eu já li, em tudo que eu ja PERCEBI da vida e das paisagens e dos amores que eu senti. Não é fácil encarar seus próprios sonhos, seus desafios espirituais.

Quem assistiu de fora, ou de dentro com o coração fechado, não pensava duas vezes em me julgar! Eles me viam reduzindo as leituras e procurando músicas. Eles me viam querendo viajar, querendo descobrir novas luzes. Me viram, também, voltando a escrever num ritmo mais intenso do que nunca, e me acharam doida por isso também.

Me viam quieta, atenta, atrevida em projetos acadêmicos, e comepltamente feliz nas festas. E pra alguns, fui e sou anti-social. Pra outros, não passo de uma maluca que usa pouco pano.
De repente seja inevitável se desviar dos rótulos. E eu acabei aprendendo a lidar com eles.

Definitivamente, não me consideram uma pessoa muito normal.
Mas eu me contento quando vejo confiança em olhos amigos,
olhos que me vêem por dentro
e acreditam na helô revolucionária, ou pelo menos pseudo-guerrilheira =P

Eu já meti os pés pelas mãos algumas vezes tentando esquecer um grande amor, ou interrompendo algum projeto confuso.

Mas a minha emoção é real.
Construída com livros,
filmes,
sorrisos sinceros,
beijos atordoados
e muita fé.

Me julgue,
mas não duvide do meu coração.


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